|
EM MEMÓRIA DO MUNDO
Traducciòn de Luz Gomes
O meu mundo,
É o mundo do sorriso nos lábios alheios.
Mas quem vem a mim,
Aviva o sentido da natureza
Que desemboca a sua miragem no sonho,
E então,
Como todos,
Invento o meu próprio sonho,
Vago e vagam comigo
As maiores árvores,
E quando as plantas brotam
Com as primeiras chuvas,
Durmo.
Alguma flor estende seus frágeis braços,
Adoçando o ar
Das vaporosas orlas da lembrança,
Alenta luminosas visões
Cheias de vida.
Tenho aqui
A temporada mais vasta
Que se passou no mundo.
Sonho agora
No porvir da corrente de um rio,
E outra vez,
Na árida escuridão,
A dança fecunda o ar,
Uma estrela atravessa o espaço,
E silenciosamente,
Quase entre as minhas mãos,
A tormenta dança na paisagem.
Nada alcanço a dizer
Depois de ter visto a névoa,
A acre névoa que chega
De portos distantes
E penetra os muros desta cidade cega
Em que eu habito.
Sou passageiro nocturno de mim mesmo,
E a onde quer que vou,
Tenho a clareza exacta do meu nome.
Mas vem à minha chegada,
Vem, tu,
Habitante de olhos desertos,
Vem a mim,
Que se abram teus lábios,
Pronuncia-me,
Fala-me do velho pó
Destes dias que não serão,
E depois,
Acaba a tua palavra,
Ouve o rodar incerto da tua lágrima,
Não tentes agora acariciar
A húmida presença da vida.
Antonio Leal. Poemas Provinciales. Pontevedra, Espanha, 2004.
|